Crise na comensalidade e a importância de comer junto

De um tempo para cá, tenho refletido muito, junto a colegas psicólogos que atuam no tratamento da obesidade e dos transtornos alimentares, sobre aquilo que observamos na prática clínica e que diversos teóricos das ciências sociais e humanas vêm chamando de crise da comensalidade. 

Vivemos um tempo em que comer tornou-se um ato apressado, frequentemente solitário e mediado por telas, o que nos convida a pensar de forma mais cuidadosa sobre essa transformação. Antes de tudo, gostaria de convidar o leitor a se aprofundar nesse tema, compreendendo o que entendemos por comensalidade, sua origem histórica, os sinais de sua crise e por que o ato de comer junto fortalece vínculos, a saúde mental e a vida em sociedade.

O que é comensalidade, em termos simples?

A comensalidade é um conceito das ciências sociais e humanas que define o ato de comer junto. Mais do que uma necessidade biológica para conseguir nutrientes (ou como tenho muito escutado: ingerir proteínas, carboidratos e gorduras), trata-se de uma prática social que envolve compartilhar tempo, espaço e alimento com outras pessoas.

Quando comemos juntos, entramos em contato com dimensões sociais, simbólicas e normativas que organizam nossas relações: família, amizades, trabalho e comunidade. Além de fonte prazer, a alimentação tabém é permeada por regras e tabus, e nesse sentido, revela muito sobre a estrutura da vida cotidiana e sobre como nos relacionamos uns com os outros.

Refletir sobre a comensalidade ajuda a compreender conflitos interpessoais, dificuldades alimentares e até questões observadas na clínica, como depressão e burnout, especialmente em um tempo marcado pela pressa, competição e isolamento.


A alimentação como base da história humana

A história da humanidade é, também, a história da alimentação. Evidências arqueológicas mostram que há centenas de milhares de anos os seres humanos já se reuniam em torno do fogo para compartilhar alimentos.

A antropologia evolucionista sugere que dividir a comida foi fundamental para a sobrevivência e a evolução humana. Autores clássicos, como Claude Lévi-Strauss, analisam esse processo ao mostrar como o ato de cozinhar e comer juntos marcou a passagem da natureza para a cultura.

Momentos históricos e simbólicos reforçam isso: da passagem da caça/coleta para a agricultura, do Banquete de Platão, a Última Ceia,  ou até os cafés europeus, que se tornaram espaços de debate político e fortalecimento da vida democrática.


Comer junto: um ato individual e social ao mesmo tempo

Georg Simmel, em A Sociologia da Refeição, defende que a refeição é o ponto onde o natural e o cultural se encontram. Comer é um ato individual, mas profundamente regulado e compartilhado socialmente.

Justamente por ser uma necessidade universal, a alimentação se torna um poderoso elemento de conexão humana. No entanto, na sociedade contemporânea, esse ato vem se tornando cada vez mais individualizado, o que muitos autores descrevem como uma verdadeira crise da comensalidade.


Tecnologia enfraquece a comensalidade?

A presença constante de televisão, celulares e computadores durante as refeições dificulta a atenção plena à comida e ao outro. Não é possível estar verdadeiramente presente quando a atenção está dividida entre estímulos digitais.

O próprio governo brasileiro, em inquéritos alimentares, observa que grande parte da população realiza refeições em frente à TV. Comer passa a ser apenas um meio para ter energia e continuar trabalhando, perdendo sua dimensão social.

A refeição exige tempo e presença, dois recursos cada vez mais escassos na vida acelerada atual. Ainda assim, é possível reconstruir uma relação mais consciente com a comida e com o Outro.


Estratégias para resgatar as refeições em família

O declínio da comensalidade está ligado ao estilo de vida moderno: fast food, delivery, ultraprocessados e refeições apressadas. Esses modelos favorecem aquilo que tenho chamado de ”comer solitário”.

Algumas estratégias possíveis:

  • Planejar refeições simples em conjunto

  • Envolver todos no preparo, organização e limpeza

  • Fazer compras em mercados ou feiras locais

  • Reservar um tempo sem telas para comer

  • Optar por restaurantes em que é possível conversar

Outras culturas, como a filosofia africana do Ubuntu, reforçam a ideia de que somos constituídos na relação com o outro. E compartilhar a comida é parte central disso.


Um convite à reflexão

Pensar sobre comensalidade é pensar sobre como vivemos, nos relacionamos e cuidamos uns dos outros. Mesmo em pequenos gestos, como sentar à mesa sem pressa, lavar alimentos, preparar a refeição e a mesa é possível fortalecer vínculos e promover saúde emocional.

Ao refletir sobre o ato de comer junto, abrimos espaço para contornar a crise da comensalide ao menos dentro de casa e ter uma convivência mais humana, afetiva e consciente.

FAQ:

P: O que significa comensalidade?
R: É o ato de comer junto, compartilhando a refeição com outras pessoas.

P: O que é a crise na comensalidade?
R: É a redução, observada em estudos, do comer junto e o impacto disso na nossa saúde mental.

P: A tecnologia atrapalha a comensalidade?
R: Sim. Telas reduzem a presença, o diálogo e a atenção à refeição.

P: Comensalidade é só em casa?
R: Não. Pode ocorrer em ambientes institucionais, como escolas e restaurantes.